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03. Onde Estou

Decidi seguir em frente, e agora habito nas ruínas de quem fui.

É a melhor forma que consigo para definir este sentimento que trago em mim.

Depois de me perder e de me procurar, comecei a concluir que o que tinha em mim era algo novo e desconhecido, sendo que a minha existência anterior tinha-se extinguindo por completo e para sempre.

Não sinto que isso seja verdade.

Na realidade, tenho quase a certeza de que neste momento existo e vivo nos destroços de quem fui, e no meio deste caos ainda existe alguma essência do meu outro eu.

Se me consigo reconstruir? Não sei. Penso que não. Sinto que se tentasse, deixaria de existir por completo no processo.

A verdade é que a noite foi gradualmente surgindo, e agora faz parte do meu ser. Não reparei que estava a escurecer, e esse foi o problema. Fui pensando que é normal. Fui pensando que logo ia passar. Fui acreditando que estava tudo bem. Habituei-me a viver com o peso do mundo nos ombros. Não procurei mudar nem clarear a noite. 

E agora, talvez seja tarde de mais. 

Nessa escuridão, não percebi que me estava a destruir por dentro. Não tive a mínima noção de que os pilares que me definiam tinham quase todos ruído, e que a pessoa que eu tinha construído estava a desabar. 

Agora, já não existe dia, a noite instalou-se, e faz parte irremediavelmente de mim. 

No entanto, já me vou habituando ao escuro. Já consigo ver melhor que antes e sinto que nem tudo sucumbiu. Ainda tenho algumas paredes erguidas e nem todos os pilares tombaram.

E, enquanto assim for, sinto que há esperança.

I decided to move on, and now I live in the ruins of who I was.

It is the best way I can to define this feeling that I have in me.

After losing myself and looking for me, I began to conclude that what was in me was something new and unknown, and that my previous existence had been completely and forever extinguished.

I don’t feel this is true.

In reality, I am almost sure that at this moment I exist and live in the wreckage of who I was, and in the midst of this chaos there is still some essence of my other self.

Can I rebuild myself? Do not know. I think not. I feel that if I tried, it would cease to exist completely in the process.

The truth is that the night has gradually emerged, and now it is part of my being. I didn’t notice it was getting dark, and that was the problem. I was thinking that it is normal. I was thinking that it would soon pass. I was believing that everything was fine. I got used to living with the weight of the world on my shoulders. I didn’t try to change or lighten the night.

And now, it may be too late.

In that darkness, I didn’t realize that I was destroying myself inside. I had no idea that the pillars that defined me were almost all noisy, and that the person I had built was collapsing.

Now, there is no more day, the night has settled in, and it is an irreparable part of me.

However, I am getting used to the dark. I can see better than before and I feel that not everything has succumbed. I still have some walls up and not all of the pillars have fallen.

And as long as it is, I feel that there is hope.

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