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04. Incompleto

Sou e sempre serei imperfeito. Assim como tudo o que existe.

Passei uma grande parte da minha vida a tentar aperfeiçoar-me. Trabalhei nos meus pontos fracos, aprendi com os meus erros, cresci e melhorei o máximo que pude, mas só agora é que percebi algo importante. Nunca se conhece verdadeiramente alguém. Nem a nós próprios. Julgamo-nos donos e conhecedores de nós, e muitas vezes dos que nos rodeiam, mas estamos enganados.

Eu pelo menos sempre estive.

Enquanto aqui moro, julgo-me sozinho, mas não estou. Algures pelas ruas desfeitas e sombrias deste mundo existe a minha sombra. Onde quer que vá, sinto que ela está lá… mas nunca a consigo ver na totalidade.

Apenas vejo vestígios. Um fantasma sem corpo. Uma sensação. Uma presença. E sei que, na realidade, quem me persegue, sou eu.

Enquanto vasculho pelos pedaços que sobraram de mim na esperança de me reconstruir, vou-me sentindo cada vez mais desconectado dessa minha passada existência. Vejo e sinto as sobras do que fui e não consigo sentir afeto. 

Estarei eu quebrado para sempre? Valerá sequer a pena investir a força que me resta a desenterrar cacos desse outro eu?

Cada vez mais penso que não. 

Agora, julgo que se continuar a caminhar em direção ao abismo, nunca mais vou conseguir sair de lá. No entanto, por mais estranho que me pareça, não sinto receio. Tenho a vista posta nesse lugar sombrio, mas não fujo dele. Não quero fugir. Sinto-me atraído, e quanto mais me envolvo com essa noite, mais perto dela quero ficar. Quero-me sentir preenchido, na totalidade, por essa escuridão infindável, e é isso que ainda não consigo compreender.  

Cansado, continuo a caminhar em direção ao escuro, e aos poucos vou deixando de vasculhar. Vou deixando de procurar por mim. Aos poucos, os candeeiros que iluminam este lugar vão-se apagando. E já restam tão poucos… 

Em breve, serei apenas eu e a noite.   

_

I am and will always be imperfect. Just like everything that exists.

I spent a large part of my life trying to improve myself. I worked on my weaknesses, learned from my mistakes, grew and improved as much as I could, but only now I realized something important. You never really know anyone. Not even ourselves. We think we are owners and connoisseurs of us, and often of those around us, but we are mistaken.

At least I always have been.

While I live here, I think I’m alone, but I’m not. Somewhere along the broken and dark streets of this world there is my shadow. Wherever I go, I feel that she is there … but I can never see her fully.

I only see traces. A disembodied ghost. A sensation. A presence. And I know that, in reality, it is myself who is chasing me.

As I search through the pieces that are left of me in the hope of rebuilding myself, I feel more and more disconnected from my past existence. I see and feel the remains of what I was and I cannot feel affection.
Am I broken forever? Is it even worth investing the strength I have left to dig up shards of that other self?

More and more I think not.

Now, I think that if I continue to walk towards the abyss, I will never be able to leave it. However, as strange as it may seem to me, I am not afraid. I have my eyes on that dark place, but I don’t run away from it. I don’t want to run away. I am attracted, and the more I get involved with that night, the closer I want to be. I want to feel completely filled with that endless darkness, and that is what I still cannot understand.

Tired, I continue to walk towards the dark, and gradually I am no longer searching. I stop looking for me. Gradually, the lamps that illuminate this place go out. And there are so few left…

Soon, it will be just me and the night.

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